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Diretora de cinema bósnia é considerada 'desobediente' em seu país

Sarajevo, Bósnia-Herzegovina – Uma célebre diretora de cinema bósnia sempre soube que seu último filme, o drama angustiante de uma mãe que tenta, sem sucesso, salvar seu marido e dois filhos do massacre de Srebrenica em 1995, seria criticado por nacionalistas sérvios.

Sarajevo, Bósnia-Herzegovina – Uma célebre diretora de cinema bósnia sempre soube que seu último filme, o drama angustiante de uma mãe que tenta, sem sucesso, salvar seu marido e dois filhos do massacre de Srebrenica em 1995, seria criticado por nacionalistas sérvios.

A diretora Jasmila Zbanic posa para fotos em Sarajevo, na Bósnia Herzegovina em 7 de janeiro de 2022. (Damir Sagolj/The New York Times)© Distributed by The New York Times Licensing Group A diretora Jasmila Zbanic posa para fotos em Sarajevo, na Bósnia Herzegovina em 7 de janeiro de 2022. (Damir Sagolj/The New York Times)

Mesmo assim, a cineasta, Jasmila Zbanic, foi pega de surpresa quando a mídia sérvia convidou um criminoso de guerra condenado para opinar sobre o filme "Quo Vadis, Aida?", pelo qual ela ganhou o prêmio de melhor diretora da Europa.

O crítico em questão? Veselin Sljivancanin, ex-oficial do exército iugoslavo condenado à prisão pelo tribunal de Haia por dar ajuda e incentivo ao assassinato de prisioneiros na Croácia durante o massacre de Vukovar.

Embora convidar uma figura tão notória para comentar o filme tenha sido surpreendente, a reação de Sljivancanin foi a esperada: classificou o filme como uma mentira que "incita o ódio étnico" e difama todos os sérvios.

"Ele, um criminoso de guerra, quer que todos os sérvios, a maioria dos quais não têm nada a ver com seus crimes, sintam-se atacados. Está colocando sua culpa em todos os sérvios", disse Zbanic em uma entrevista concedida recentemente em sua produtora, no topo de uma colina com vista para Sarajevo, a capital bósnia.

A crença inabalável de Zbanic em que a culpa pelas atrocidades cometidas durante a separação da antiga Iugoslávia pertence a indivíduos e não a grupos étnicos a tornou um ícone cultural polêmico para alguns em sua comunidade de muçulmanos bósnios, conhecidos como bosniaks.

Quando a Academia Europeia de Cinema lhe deu o prêmio de melhor diretora e selecionou "Quo Vadis, Aida?" como o melhor filme europeu do ano, alguns políticos bosniaks a parabenizaram em sua página pessoal do Facebook, mas não houve celebrações oficiais como as promovidas quando atletas bosniaks triunfam no exterior. "Nem recebi flores", contou ela.

Ferozmente independente e autodeclarada feminista, Zbanic há anos mantém distância da potência política dominada por homens bósnios, o Partido da Ação Democrática, ou SDA, grupo nacionalista bosniak.

Como os partidos sérvios do outro lado da divisão étnica, o SDA agora ganha votos incitando a animosidade e o medo em relação a outros grupos.

"Sou contra o SDA, o principal partido político; eles sabem que não lhes pertenço", afirmou ela, lembrando que várias vezes selecionou atores sérvios para protagonizar seus filmes. "Não escolho atores por causa de sua nacionalidade, mas porque são os melhores."

Em seu filme mais recente, o papel principal, uma tradutora bosniak que trabalha para as Nações Unidas em Srebrenica, é interpretado por Jasna Djuricic, da Sérvia, que ganhou o prêmio de melhor atriz da Academia Europeia de Cinema e foi ridicularizada na mídia sérvia como uma traidora amante de muçulmanos.

Haris Pasovic, proeminente diretor do teatro bósnio que foi professor de Zbanic durante os anos de guerra na Academia de Artes Cênicas de Sarajevo, disse que a colaboração de sua ex-aluna com a atriz sérvia demonstrou sua crença em que a cultura transcende o nacionalismo: "Os eventos deveriam ter separado essas duas pessoas para sempre, mas elas se uniram para criar uma obra de arte incrível."

E acrescentou: "O sucesso internacional fez de Zbanic a mulher mais bem-sucedida da história bósnia e, como resultado, ela aterroriza políticos dos Bálcãs, quase todos homens.

Toma muito cuidado para não ser usada como moeda de troca política nos Bálcãs e nunca quis fazer parte de grupo nenhum."

A Bósnia tem uma longa e rica história cinematográfica desde quando ainda fazia parte da Iugoslávia, o Estado socialista multiétnico que desmoronou no início dos anos 1990 e gerou o conflito armado mais sangrento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Mais de 140 mil pessoas morreram nas lutas que se seguiram. "O que aprendi durante a guerra é que a comida e a cultura são iguais.

Não dá para viver sem elas", comentou Zbanic.

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